domingo, 29 de julho de 2012




Representação de um composto histórico – mente e corpo na obra “ A GIRAFA EM CHAMAS”


Influenciados pelas reflexões acerca da subjetividade, trazidas a tona principalmente por Freud, vários artistas europeus (e, dentre eles, o pintor espanhol Salvador Dalí) irão criar obras repletas de humor, sonhos, utopias, e qualquer representação que contrarie a lógica, compondo assim o que veio a ser o movimento artístico denominado surrealismo, iniciado na década de 1920 na França.

Nos anos 30, na Espanha, houve uma divisão entre grupos políticos de esquerda e direita: a Frente Popular comandada pelos comunistas; e a Falange Espanhola Tradicionalista que agrupava ultraconservadores fascistas espanhóis.

 O conflito entre comunistas e fascistas instalou um clima de guerra civil na Espanha. Os longos conflitos deixaram o país vivendo uma situação de caos e horror e aproximadamente um milhão de espanhóis foram mortos durante as batalhas que duraram de 1936 a 1939.

Em 1936/37, Dalí pinta a obra “A girafa em chamas” inspirando-se em seu tempo.


A OBRA


Na obra, a atmosfera de irrealidade nos transporta a um universo de pesadelo. A paisagem desoladora e infrutífera nos apresenta duas mulheres com sua fragilidade à mostra, seus rostos sem feições dão a sensação de cegueira e impotência mediante a tudo o que as cerca.

Seus corpos são apresentados como simples matéria sujeita ao desgaste do tempo. Os braços estendidos em “carne viva” da mulher no centro do quadro nos permite crer que ela expõe sua natureza mortal. Esta mesma mulher corporalmente demonstra um impulso para frente, como se quisesse fugir a este pesadelo; a este céu negro e sem esperança.

Com o rosto sem expressão ou traço de humanidade, a personagem expressa um o grito de desespero silencioso.

 As inúmeras muletas intrínsecas ao corpo das mulheres acentuam ainda mais seu estado frágil e dependente. Seriam muletas institucionais ou psicológicas necessárias para sua sustentação?

As gavetas abertas e vazias no corpo da mulher central da obra traz a possibilidade de se encontrar algo oculto ou escondido, os anseios, desejos, medos, sentimentos “além carne” desta mulher.

As figuras femininas do quadro, embora sejam apresentadas como carne ou matéria puramente orgânica, podem ser sentidas como presenças espirituais, carregadas de solidão e drama em meio a uma atmosfera de horror, contudo é na representação da girafa em chamas que se desvela a obra.

 As girafas vivem em ares pobres e secos, não emitem sons, são resistentes, têm pouco descanso, vivem em pequenos grupos ou solitárias. Assim, podemos considerar que a girafa em chamas é a materialização do homem que o pintor enxergava. Um homem pobre, silenciado, oprimido, explorado, que vive em condições subumanas e que ainda assim, resiste em manter-se em pé.

Esta girafa em chamas é o homem resistente, que mesmo em chamas mantém-se como se nada o incomodasse.

Com base nestas considerações, esta breve reflexão teve por objetivo apresentar uma livre leitura da obra “A girafa em chamas” do pintor espanhol Salvador Dalí, na tentativa de apresentar uma unidade composta de corpo e alma, inserida num contexto de guerra e terror, que é o homem espanhol da década de 30.


Ao pensar sobre o tema corpos amorosos, mentes amorosas, inicialmente me sobrevém a questão do corpo e a mente enquanto partes que compõe um todo particular, que é o homem. Ainda a olhar sobre o homem e sua individualidade, é inevitável não pensar as relações que aquele estabelece com o mundo, relação esta, ativa e constante de alguém que afeta e é afetado por ele.

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